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Como se Comporta o Eleitor em Eleições Proporcionais de Lista Aberta

  • gilbgna6
  • 6 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

SÉRIE ESPECIAL: ELEIÇÕES PROPORCIONAIS BRASILEIRAS - PARTE 1

Leandro Rodrigues dez 04, 2025




O que esta série se propõe a fazer


Esta é a primeira parte de uma série de três textos sobre o funcionamento real das eleições proporcionais no Brasil. O objetivo aqui é explicar como o eleitor toma decisões em sistemas de lista aberta. Na Parte 2, examinaremos as raízes históricas e culturais que moldaram esse modo de decidir. Na Parte 3, transformaremos essas evidências em orientações práticas para candidatos que pretendem disputar 2026 com vantagem estratégica.


As regularidades do voto proporcional brasileiro aparecem de forma consistente tanto nas estatísticas do TSE quanto nos levantamentos do ESEB, que revelam padrões estáveis de comportamento eleitoral. O conjunto dessas evidências converge em cinco características centrais que estruturam o voto legislativo no Brasil, explicando por que o eleitor tende a escolher pessoas e não partidos, valoriza vínculos locais e reage de maneira intensa a campanhas altamente personalizadas.


Voto personalista e candidato cêntrico


O voto nominal domina as eleições proporcionais brasileiras. Em praticamente todas as disputas, algo entre 90 e 95 por cento dos votos válidos vai para nomes específicos, enquanto menos de 10 por cento se destinam às legendas. Em 2022, por exemplo, o país registrou 6,9 milhões de votos de legenda para deputado federal, uma fração pequena diante do universo total de eleitores. O padrão é consistente:


a maior parte dos brasileiros vota pensando em alguém, não em alguma sigla.

Jairo Nicolau, em Eleições no Brasil: Do Império aos dias atuais, mostra que esse comportamento não é episódico. Ele se repete desde a redemocratização e se sustenta porque o eleitor responde a uma pergunta simples: quem é a pessoa capaz de resolver problemas concretos ou de representar seus interesses? O partido, nessa lógica, atua apenas como pano de fundo.


Voto econômico localista e racionalidade de proximidade


Deputados competitivos concentram votos em poucos municípios e dependem de redes locais formadas por prefeitos, vereadores e lideranças intermediárias. Essa dinâmica territorial, documentada por Barry Ames em The Deadlock of Democracy in Brazil e por David Samuels em Ambition, Federalism, and Legislative Politics in Brazil, mostra que

o eleitor valoriza quem é do lugar ou mantém vínculos diretos com a região. O chamado efeito conterrâneo é forte e recorrente.


Além disso, estudos recentes, como o de Bertholini, Pereira e Rennó em Pork is Policy: Dissipative Inclusion at the Local Level, mostram que benefícios concretos entregues ao município, especialmente por meio de emendas parlamentares, são percebidos pelo eleitor como prova de eficácia. Complementarmente, análises sobre realinhamento eleitoral e mudança nos padrões de representação, como as de Jairo Nicolau em O Brasil dobrou à direita: Uma radiografia da eleição de Bolsonaro em 2018, ajudam a situar essa lógica dentro de um quadro mais amplo do comportamento político brasileiro. O voto se organiza pela combinação entre identidade territorial e capacidade real de produzir resultados.


Puxadores de voto e voto útil indireto


O sistema proporcional cria situações em que candidatos com votações extraordinárias acabam elegendo outros nomes da mesma chapa. Os casos são conhecidos: Enéas Carneiro em 2002, Tiririca em 2010, Nikolas Ferreira em 2022.


O eleitor escolhe a celebridade, mas influencia a distribuição de cadeiras dentro do partido de modo indireto e muitas vezes involuntário.


Esse mecanismo faz com que o voto pareça individual, embora gere efeitos coletivos profundos. A legislação transforma o entusiasmo por um nome altamente popular em capital político para candidatos que, isoladamente, não atingiriam a votação necessária.


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Baixa informação partidária e alta volatilidade


A identificação partidária no Brasil é fraca. Pesquisas do ESEB mostram que apenas uma minoria dos eleitores declara alguma proximidade com partidos, e esse vínculo é instável. Muitos não se lembram em quem votaram para deputado na eleição anterior, como demonstram estudos de Avelino, Izumi e Russo.


Essa combinação gera um eleitor que decide por pessoas concretas, mas que troca facilmente de candidato entre uma eleição e outra. O vínculo é personalizado, porém superficial. A lógica territorial e simbólica permanece, mas o nome específico pode mudar rapidamente.



Importância crescente do marketing individual e das redes sociais


A importância crescente do marketing individual e das redes sociais tornou-se ainda mais evidente a partir de 2014 e, com muito mais força, em 2018 e 2022. WhatsApp, Instagram, TikTok e Facebook permitem que candidatos se comuniquem diretamente com nichos específicos, ampliem presença e construam audiência mesmo sem grande estrutura partidária. Esse ambiente reforça o personalismo: o candidato aparece como rosto, voz e narrativa, enquanto partidos se tornam quase invisíveis na comunicação prática.


Esse movimento dialoga diretamente com o que demonstrei em A Nova Geografia Informacional do Brasil e a Disputa pela Formação do Eleitor, onde a fragmentação das esferas informacionais cria públicos politicamente distintos conforme seu modo de acesso à informação. A literatura recente sobre sistemas midiáticos híbridos, como The Hybrid Media System: Politics and Power, de Andrew Chadwick, mostra que a ascensão das plataformas digitais altera profundamente os mecanismos de mediação e redistribui poder comunicacional. No contexto brasileiro,

isso significa que o eleitor passa a se relacionar diretamente com quem lhe fala diariamente pelo celular, reforçando campanhas personalizadas e ampliando o peso da comunicação individualizada nas disputas proporcionais.

Como esses elementos se articulam


Esses cinco fatores formam uma estrutura clara para o voto proporcional no Brasil.


O eleitor escolhe pessoas, não partidos, e organiza sua decisão a partir de três filtros principais: proximidade territorial, utilidade percebida e identificação simbólica. Essa forma de decidir não é improvisada. Ela combina práticas antigas de mediação pessoal, baixa institucionalização partidária e um sistema eleitoral que estimula a competição individual.


A Parte 2 aprofunda as raízes históricas que sustentam esse comportamento, mostrando como práticas sociais de longa duração explicam o personalismo contemporâneo. Na Parte 3, essas evidências serão convertidas em orientações práticas para quem deseja disputar uma campanha proporcional competitiva.


Referências


George Avelino, Maurício Izumi e Guilherme RussoConceptualizing the Personal Vote, 2020

Frederico Bertholini, Carlos Pereira e Lucio Rennó – Pork is Policy: Dissipative Inclusion at the Local Level, 2018

John Carey e Matthew ShugartIncentives to cultivate a personal vote, 1995


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Doutor em ciência política, pesquisador do comportamento do brasileiro, instituições, Judiciário e identidade nacional. Professor universitário com passagens por diversas universidades, incluindo UnB e IDP. Ex-pesquisador da ENAP, ex-conselheiro da comissão de anistia do então MMFDH. Sócio e Consultor Técnico da Grupom Consultoria e Pesquisa


 
 
 

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