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A Percepção dos Goianos sobre a Operação Policial no Rio de Janeiro de 28/10/2025

  • gilbgna6
  • 19 de nov. de 2025
  • 29 min de leitura

Uma leitura analítica sobre opinião pública, segurança e narrativa política



Para quem não tem tempo - resumo


O presente estudo, desenvolvido pela GRUPOM Consultoria, teve como objetivo analisar a percepção dos goianos acerca da megaoperação policial realizada na cidade do Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2025, bem como suas repercussões políticas, simbólicas e comunicacionais. A pesquisa, de natureza quantitativa, foi conduzida por meio de entrevistas web autoadministradas, abrangendo 831 eleitores goianos com idade entre 16 e 65 anos, e apresentou nível de confiança de 95% e margem de erro de 3,2 pontos percentuais.


Os resultados indicam elevado grau de conhecimento (99%) sobre o episódio e ampla aprovação à ação policial (82,3%), revelando um alinhamento moral e simbólico com narrativas de ordem e autoridade. A avaliação dos agentes políticos demonstra alta aprovação do governador Ronaldo Caiado (76,8%) na área de segurança pública, contrastando com a percepção negativa em relação ao governo federal, considerado ausente por 73,4% dos entrevistados no apoio aos estados no combate ao crime organizado. Essa assimetria consolida a imagem de Caiado como liderança técnica e moral no campo da segurança e evidencia um vácuo narrativo da União na condução do tema.


Além disso, a maioria dos entrevistados reconhece que Goiás possui capacidade técnica (81%) para o enfrentamento às facções criminosas, mas apenas 65% percebem o estado como plenamente preparado, o que sugere um descompasso entre eficiência operacional e percepção pública de prontidão. Outro dado relevante aponta que 63,4% afirmam já ter visto pichações com siglas do PCC ou CV em suas cidades, indicando presença simbólica do crime organizado e um medo difuso que fragiliza a autoridade do Estado no imaginário coletivo.


Conclui-se que os objetivos do estudo foram plenamente atingidos, oferecendo evidências empíricas sobre como as percepções de segurança moldam a legitimidade política em contextos conservadores. O estudo demonstra que a segurança pública é hoje o eixo central da confiança moral e política no Estado de Goiás, e que a manutenção dessa confiança depende tanto da eficácia operacional quanto da capacidade comunicacional de transmitir vigilância e controle permanentes. As implicações estratégicas indicam que, para o governo estadual, o desafio é transformar competência técnica em sensação pública de proteção, enquanto, no cenário nacional, a ausência de narrativa de autoridade por parte do governo federal tende a fortalecer lideranças estaduais e projetos políticos de direita nas eleições de 2026.


No final do texto completo há um link para solicitar o relatório completo deste estudo

Texto Completo


Introdução

A megaoperação policial realizada no Rio de Janeiro em 28 de outubro de 2025 rapidamente extrapolou as fronteiras do estado e se tornou tema de debate nacional. A dimensão do confronto, o elevado número de mortos e as declarações divergentes entre autoridades federais e estaduais produziram um episódio de grande repercussão simbólica — tanto pela questão da segurança pública quanto pelo modo como a comunicação institucional moldou as percepções sociais sobre o evento.


Partindo desse contexto, a GRUPOM Consultoria desenvolveu um estudo com o objetivo de avaliar a percepção dos goianos sobre a operação e compreender como esse tipo de ação impacta a opinião pública fora do eixo diretamente afetado. A segurança pública permanece, há anos, entre as principais preocupações dos brasileiros — frequentemente superando temas como saúde e educação nas pesquisas nacionais. Entre os goianos, esse padrão se repete com consistência, conforme levantamentos anteriores realizados pela própria Grupom e por outros institutos de referência.


O estudo buscou identificar quais sentimentos e interpretações a operação desencadeou entre os eleitores de Goiás, de que forma ela influencia a confiança nas instituições de segurança e como se reflete na imagem dos agentes políticos.


Trata-se de uma iniciativa independente da Grupom, financiada integralmente com recursos próprios, e voltada à observação de tendências de opinião pública que se manifestam de modo quase instantâneo no ambiente digital — um campo em que a análise de dados e o marketing analítico se tornam ferramentas decisivas para interpretar o comportamento coletivo.



Metodologia

A pesquisa tem natureza quantitativa, baseada em entrevistas web realizadas com 831 eleitores de Goiás entre 3 e 5 de novembro de 2025. O público investigado abrange cidadãos com idade entre 16 e 65 anos, residentes em diferentes microrregiões do estado.

O levantamento foi estruturado com nível de confiança de 95% e margem de erro de 3,2 pontos percentuais para o conjunto da amostra. A coleta on-line permitiu captar reações imediatas ao episódio, explorando o intervalo de tempo em que a operação ainda era dominante nas manchetes e nas discussões em redes sociais — o que favorece análises sobre formação rápida de opinião e efeitos de enquadramento midiático (“framing effects”).


A escolha por um formato digital reflete uma tendência crescente nas pesquisas de opinião: o deslocamento da coleta presencial para o ambiente virtual, não apenas por razões logísticas, mas por oferecer acesso mais ágil a fluxos de percepção em tempo real. Do ponto de vista analítico, esse método também potencializa o cruzamento entre variáveis sociodemográficas e padrões de engajamento digital — um aspecto central para compreender como a segurança pública é percebida, comentada e politizada no espaço online.



O Grau de Conhecimento: quando a opinião se forma em tempo real




O primeiro dado relevante do levantamento aponta um nível praticamente universal de conhecimento sobre a operação policial do Rio de Janeiro.Nada menos que 99% dos goianos entrevistados afirmaram ter acompanhado as notícias pela imprensa ou pelas redes sociais, enquanto apenas 1% relataram ter “ouvido falar” do caso, e nenhum entrevistado declarou desconhecimento total do episódio.


Esse dado, à primeira vista, revela a força de difusão da informação em um contexto de grande repercussão nacional, mas também deve ser interpretado à luz do perfil metodológico da amostra. Como as entrevistas foram realizadas via web e de forma autoadministrada, é natural que o público participante apresente níveis médios de escolaridade e renda mais elevados, além de maior inserção digital e interesse pelos temas da atualidade. Ou seja, a taxa de exposição midiática de 99% não deve ser lida como reflexo da população goiana em geral, mas sim como um indicativo de como os grupos mais conectados social e economicamente reagem a eventos de alta saliência nacional.


Do ponto de vista analítico, isso reforça o papel das redes sociais e da imprensa digital como agentes primários de enquadramento da opinião pública. Quando praticamente todos os respondentes se informam pelos mesmos canais, a pluralidade de perspectivas tende a se reduzir, e a narrativa dominante do noticiário assume função estruturante na formação das percepções — fenômeno típico do que a literatura de marketing político chama de agenda convergence, quando os temas e interpretações circulam de forma homogênea em diferentes plataformas.


Cruzamentos regionais e de gênero: a homogeneidade da exposição


Os cruzamentos da variável “conhecimento da operação” por região (Interior e Região Metropolitana) e sexo (homens e mulheres) revelam variações mínimas: tanto entre os moradores da capital quanto do interior, o percentual de acompanhamento via imprensa ou redes sociais se manteve em torno de 99%. Do mesmo modo, homens e mulheres demonstraram níveis idênticos de exposição e engajamento informativo.


Essa homogeneidade é um indicador raro em pesquisas de percepção pública — especialmente em temas de segurança, que costumam exibir recortes marcados por localização, classe social ou gênero. No caso da operação do Rio, a amplitude e a intensidade da cobertura jornalística parecem ter nivelado o grau de conhecimento, transformando o episódio em um evento de alcance nacional quase total.


Para fins de análise de comportamento político e comunicação pública, o resultado sugere que a operação atingiu o status de “evento-síntese”, isto é, um fato que se converte em frame de referência coletiva sobre segurança, criminalidade e legitimidade da ação estatal.


Consideração

A partir dessa constatação, abre-se uma questão relevante para o marketing analítico aplicado à política: quando o grau de conhecimento atinge a totalidade dos públicos, a disputa de percepções não se dá mais no campo da informação, mas da interpretação. Em outras palavras, o desafio não é “fazer saber”, mas “fazer sentir” — isto é, orientar emocional e cognitivamente como o público deve compreender o ocorrido.


Apoio à ação policial: entre o consenso moral e as nuances regionais e de gênero



Os dados mostram que a operação policial no Rio de Janeiro conta com ampla aprovação entre os goianos: 82,3% afirmaram aprovar a ação, enquanto 16,8% declararam desaprovação, e apenas 0,9% não souberam opinar.Trata-se, portanto, de uma percepção largamente favorável, com um grau de apoio que, em termos de pesquisa de opinião, configura um “consenso moral majoritário” — quando a resposta positiva se aproxima de um padrão de concordância social mais do que de opinião individual refletida.

Esse resultado reforça a hipótese de que a segurança pública opera, no imaginário coletivo, como um valor normativo de legitimidade do Estado, especialmente em contextos de alta exposição midiática. A operação, amplamente divulgada e enquadrada como resposta estatal à criminalidade organizada, parece ter sido interpretada mais sob a ótica da “necessidade de ação” do que pela dimensão humanitária ou institucional das mortes envolvidas.


Variações regionais: interior mais punitivista, região metropolitana mais crítica


Os cruzamentos revelam diferenças expressivas por região. Entre os moradores do interior de Goiás, 88,5% aprovam a operação, contra 79,4% na região metropolitana. Já a desaprovação segue o movimento inverso: 10,7% no interior, frente a 19,7% na capital e entorno.

Essa diferença pode estar associada a três fatores complementares:

  1. Distância simbólica do fato — no interior, o episódio é percebido de forma mais mediada, sem a carga imagética direta da violência urbana. A operação é compreendida como uma ação “contra o crime”, e não como um evento de possível violação de direitos humanos. A distância geográfica se converte, aqui, em distância emocional, o que tende a elevar o apoio.

  2. Diferença no repertório informativo — moradores das regiões metropolitanas, expostos a um fluxo de informação mais diversificado e a maior contato com narrativas críticas (mídias alternativas, influenciadores, universidades), tendem a relativizar a legitimidade do uso extremo da força, o que explica o maior índice de desaprovação.

  3. Contexto político-cultural — o interior goiano apresenta, historicamente, maior alinhamento a valores conservadores e de autoridade, reforçando a associação entre força policial e ordem pública. Esse padrão aparece de forma recorrente em pesquisas da Grupom e de outros institutos sobre percepção de segurança.


Diferenças de gênero: o olhar masculino da força e o olhar feminino do risco


A análise por sexo também revela um contraste expressivo: 87,2% dos homens aprovam a operação, contra 77,5% das mulheres. Já a desaprovação feminina atinge 21,4%, quase o dobro da masculina (12,1%).

Essa discrepância permite algumas hipóteses interpretativas:

  1. Dimensão simbólica da violência — a mulher tende a reagir com maior sensibilidade à exposição de mortes e confrontos armados, percebendo na operação um componente de risco e descontrole mais do que de eficácia.A aprovação masculina, por outro lado, costuma se associar a valores de força, autoridade e disciplina, internalizados como virtudes sociais.

  2. Influência da socialização política e midiática — pesquisas de comportamento político mostram que mulheres consomem conteúdos mais diversos e interpretativos, enquanto homens tendem a preferir fontes informativas que enfatizam resultados e autoridade. Esse padrão de consumo pode amplificar a diferença de enquadramento emocional do mesmo fato.

  3. Leitura moral da legitimidade — entre os homens, prevalece a percepção de que “a polícia faz o que precisa ser feito”, uma lógica utilitarista de eficácia. Entre as mulheres, há maior tendência de avaliar a operação pelo custo humano e social, especialmente diante do número elevado de mortos.


Consideração


Em síntese, a aprovação maciça da operação reflete uma narrativa de legitimação da força como instrumento de restauração da ordem, mas as variações por região e gênero mostram que a sociedade não é unívoca: há diferenças relevantes na forma como o discurso da segurança é apropriado e ressignificado.

Para fins de análise de marketing político, isso significa que a comunicação sobre segurança pública precisa calibrar sua linguagem segundo o público-alvo:

  • no interior, mensagens que reforcem o papel da autoridade e da proteção do cidadão encontram terreno fértil;

  • nas regiões metropolitanas e entre o público feminino, o discurso tende a ser mais eficaz quando combina firmeza com empatia, traduzindo segurança não apenas como repressão, mas como proteção e presença do Estado.



O impacto da operação policial do Rio de Janeiro ultrapassa os limites da segurança pública e alcança a esfera da legitimidade política. Ao medir a avaliação dos goianos sobre o desempenho dos principais líderes — Ronaldo Caiado, Luiz Inácio Lula da Silva e Ricardo Lewandowski — na área de segurança, o estudo evidencia não apenas preferências administrativas, mas percepções de pertencimento ideológico e confiança institucional.


Caiado e o monopólio da confiança


Entre os três nomes avaliados, o governador Ronaldo Caiado apresenta desempenho amplamente positivo: 76,8% dos entrevistados avaliam sua atuação como “boa” ou “ótima”, enquanto apenas 12,4% consideram “ruim” ou “péssima”. Esse patamar o coloca em uma posição raramente observada em pesquisas estaduais sobre segurança, sobretudo quando o tema é tratado de forma nacionalmente polarizada.

Há duas chaves interpretativas principais para esse resultado:

  1. Caiado simboliza a autoridade legitimada — aos olhos do eleitor goiano, sua imagem está fortemente associada à retidão, firmeza e disciplina, atributos que comunicam ordem e previsibilidade, dois valores centrais para uma população majoritariamente conservadora. A percepção de segurança em Goiás, mesmo quando desafiada por fatos externos como a operação no Rio, tende a ser filtrada pelo reconhecimento de sua postura de comando.

  2. O capital comunicacional do governador — Caiado tem mantido uma narrativa de governo austero e moralmente estável, o que reforça a percepção de que “aqui há controle”, mesmo quando os dados nacionais indicam escalada de violência. Esse domínio narrativo é típico de líderes com alta credibilidade simbólica: a população não apenas acredita no que ele diz, mas atribui a ele o papel de guardião da ordem.

Nas regiões do interior, onde sua base política é mais consolidada, a aprovação na área de segurança alcança 78,4%, superando inclusive os patamares estaduais. Já na região metropolitana, a avaliação positiva cai para 66,3%, mas ainda assim mantém o governador em posição de destaque, sugerindo que sua imagem de gestor eficiente resiste mesmo em ambientes mais urbanos e informacionalmente diversos.


Lula e o desgaste da autoridade nacional


O presidente Lula apresenta uma leitura quase inversa. Enquanto Caiado opera como sinônimo de confiança e controle, Lula é percebido como distante da agenda da segurança pública: apenas 16,5% o avaliam positivamente nessa área, contra 80,5% de avaliação negativa. Esse resultado não se explica apenas pela operação do Rio, mas reflete um desalinhamento estrutural entre a narrativa governamental federal e o ethos conservador predominante em Goiás.


O eleitorado goiano tende a associar o governo federal a valores de tolerância e garantismo jurídico, que contrastam com a visão mais punitivista e disciplinar dominante no estado. Assim, a operação policial — embora realizada em outro território — atua como gatilho simbólico de avaliação moral: o cidadão transfere para o presidente a responsabilidade pelo “enfraquecimento da autoridade” e reforça, em contrapartida, a admiração por figuras que encarnam o oposto, como Caiado.


A diferença entre homens e mulheres é novamente reveladora: os homens são mais críticos, com 48% de avaliação “ruim/péssima”, mas também menos inclinados à empatia política; as mulheres, ainda que menos hostis, mantêm alto índice de reprovação (47,1%). Em ambos os grupos, há uma percepção de ausência de protagonismo do presidente no campo da segurança — uma área que, para o eleitor conservador, define a capacidade real de governar.


Lewandowski e o silêncio institucional


O ministro Ricardo Lewandowski, responsável pela pasta da Justiça e Segurança Pública, sofre os efeitos de uma visibilidade limitada e difusa: 16,2% o avaliam positivamente, 76,2% negativamente e 2,6% não souberam opinar.


Os dados indicam um fenômeno recorrente em análises de marketing político: a personalização da política de segurança. O cidadão médio raramente distingue a ação técnica do ministério da atuação simbólica do governador ou do presidente. Assim, a figura de Lewandowski é percebida não pelo que faz, mas pelo contexto em que está inserido — e esse contexto, no caso, é de desgaste institucional.


A ausência de comunicação proativa após a operação — contrastando com o protagonismo discursivo de Caiado em Goiás — reforça a imagem de um ministério reativo e burocrático, distante da linguagem do “enfrentamento”, que o público conservador valoriza.


Diferenças de gênero e região: a legitimidade situada


As segmentações mostram padrões consistentes com os blocos anteriores:

  • Homens atribuem notas mais altas a Caiado (79% de bom/ótimo) e mais baixas a Lula e Lewandowski, demonstrando clara identificação com o discurso da força e autoridade.

  • Mulheres, por outro lado, apresentam maior dispersão de respostas e leve inclinação à avaliação regular, indicando uma leitura mais cautelosa e emocionalmente complexa da segurança pública.

  • Regionalmente, o interior volta a exibir o perfil mais favorável à ordem e ao comando (Caiado 78,4%), enquanto a região metropolitana demonstra maior sensibilidade crítica, com redução da aprovação e leve aumento do índice “regular”.


Essas diferenças sugerem que o eleitor goiano não avalia a segurança apenas como política pública, mas como expressão moral do poder: quem “impõe respeito” é percebido como quem “garante segurança”.


Consideração


A análise dos dados revela que, em Goiás, a segurança pública é o principal vetor de transferência simbólica de confiança política. Caiado consolida-se como referência positiva porque domina a narrativa do controle — ele comunica eficiência com autoridade. Lula e Lewandowski, por sua vez, perdem legitimidade nesse campo por se comunicarem de modo racional, jurídico e distante, em um ambiente onde a emoção política é moldada pela moral da ordem.


Em termos de marketing político, isso indica que a disputa pela confiança em segurança não é técnica, mas narrativa. Quem consegue encarnar a figura do protetor moral da sociedade tende a capturar a adesão emocional do eleitorado, mesmo quando fatos concretos — como a letalidade policial — poderiam sugerir ambiguidade ética.


O apoio de Caiado e a projeção nacional da autoridade



O levantamento mostra que 79,7% dos goianos apoiam o posicionamento do governador Ronaldo Caiado em relação à operação policial no Rio de Janeiro, enquanto 18,6% não aprovam e 1,7% não souberam opinar. Trata-se de um nível de concordância política notável, sobretudo por envolver um tema externo ao estado e vinculado a uma operação de alta letalidade, que gerou reações divididas em outras partes do país.


Mais do que simples aprovação a um ato de solidariedade institucional, esse dado revela a força simbólica de Caiado como representante do ethos de autoridade e ordem que estrutura boa parte do imaginário conservador goiano. O eleitor, ao apoiar sua presença ao lado de outros governadores de perfil mais à direita, não apenas valida a decisão em si, mas reafirma o papel do governador como porta-voz de uma moral pública que valoriza firmeza, coragem e enfrentamento da criminalidade.


Projeção nacional: da liderança regional à figura presidencializável


O gesto de Caiado ao apoiar publicamente a operação e participar de atos com outros governadores não deve ser lido apenas como uma manifestação política conjuntural.Em termos de marketing analítico, ele representa um movimento estratégico de construção de narrativa nacional — uma tentativa deliberada de transcender os limites de Goiás e posicionar-se como liderança de legitimidade moral e técnica no campo da segurança pública.


A segurança é, historicamente, um dos marcadores mais poderosos de diferenciação entre lideranças da direita e da centro-esquerda. Ao alinhar-se à retórica de defesa da ação policial — e ao fazê-lo num momento em que o governo federal e organismos de direitos humanos questionavam a operação — Caiado assumiu o papel de contraponto discursivo ao Planalto, o que o projeta para o debate nacional como a voz da racionalidade da força.


A convergência de 80% de apoio ao seu gesto entre os eleitores goianos indica que o cálculo político foi bem-sucedido: sua base interpreta o movimento como coerente com seu histórico de médico, produtor rural e governador que “não recua diante do caos”.


Esse enquadramento de “autoridade serena”, mais técnica que populista, oferece a Caiado uma plataforma diferenciada dentro do campo conservador, contrastando tanto com o estilo confrontacional de Bolsonaro quanto com a retórica mais institucional de Tarcísio de Freitas.


Em síntese, a reação dos goianos sugere que o ato de apoio foi percebido como coerente, não oportunista — um indicador valioso para quem busca nacionalizar sua imagem sem parecer deslocado de suas origens regionais.


Diferenças regionais: o apoio como reflexo da cultura política local


A segmentação regional reforça o padrão já observado nas questões anteriores:

  • No interior, o apoio ao gesto de Caiado alcança 85,7%, com apenas 11,3% de discordância.

  • Na região metropolitana, o apoio cai para 76,9%, e a desaprovação sobe a 22%.


A diferença pode ser explicada por dois fatores:

  1. O peso da cultura comunitária e da hierarquia social — o interior tende a valorizar figuras de autoridade visível, especialmente aquelas que mantêm discurso de disciplina e justiça. O apoio a Caiado, nesse sentido, é identitário, mais do que racional.

  2. A heterogeneidade informacional da capital — nas regiões metropolitanas, a exposição a discursos de direitos humanos e críticas midiáticas à operação é maior, o que dilui parte do consenso moral em torno da ação policial.


Ainda assim, mesmo nos centros urbanos, o apoio majoritário a Caiado persiste, indicando que o governador conseguiu preservar sua imagem de líder ponderado, capaz de defender a segurança sem parecer radicalizado.


Diferenças de gênero: força e empatia em equilíbrio


A divisão por sexo segue o padrão observado nas perguntas anteriores:

  • Homens demonstram apoio mais elevado (84%),

  • Mulheres, um pouco menor (75,6%), com 22,7% de desaprovação.


Essa diferença, recorrente, sugere que as mulheres tendem a avaliar o gesto de apoio não apenas pela coerência política, mas também pelas implicações humanas do episódio. Enquanto os homens o leem como afirmação de liderança e coragem, parte das mulheres o percebe com ambivalência moral — reconhecem a legitimidade institucional, mas se incomodam com a associação direta à violência policial.


Do ponto de vista de comunicação política, o dado reforça que a narrativa de autoridade deve ser complementada por uma camada de empatia e proteção.Se Caiado aspira ampliar sua imagem nacionalmente, especialmente entre públicos urbanos e femininos, a transição da figura do “governador firme” para o “líder que protege” será crucial.


Consideração


O episódio confirma que Ronaldo Caiado concentra capital político simbólico suficiente para transcender o cenário estadual, e o faz a partir de um ativo raro: a legitimidade da coerência. Enquanto outros líderes dependem de marketing de reposicionamento, Caiado já possui um traço consolidado — o da autoridade confiável, construída ao longo de décadas e reforçada por uma retórica médica e moral que combina técnica e conservadorismo.


A aprovação de seu apoio à operação do Rio, portanto, funciona como ensaio empírico de sua viabilidade nacional:

  • indica adesão espontânea da base goiana à sua projeção nacional;

  • reforça seu alinhamento ao campo da direita moderada;

  • e oferece um eixo narrativo competitivo para 2026 — o da “ordem com equilíbrio”, ou, em termos de comunicação, a síntese entre autoridade e responsabilidade.


Se a política brasileira tende a oscilar entre o voluntarismo populista e a tecnocracia desidratada, Caiado pode ocupar o espaço intermediário — o do estadista moral da segurança.


Preparo e Capacidade de Goiás: entre a confiança técnica e o desafio de comunicação




Quando questionados sobre o preparo e a capacidade do Governo de Goiás para enfrentar o crime organizado e as facções criminosas, os goianos expressam elevada confiança nas forças de segurança estaduais, ainda que com nuances importantes entre regiões e perfis sociodemográficos.


De forma geral, 65,4% afirmam que o estado está preparado para o enfrentamento, enquanto 29,8% consideram que não está, e 4,8% não souberam responder. Já quando a pergunta aborda especificamente a capacidade técnica e material, o índice de confiança é ainda mais expressivo: 81% dos entrevistados acreditam que Goiás tem capacidade, frente a 14,2% que discordam.


Esses resultados revelam duas dimensões distintas, mas complementares:

  • Capacidade traduz a percepção de que o estado dispõe de meios — estrutura, tecnologia, armamento e efetivo — para agir;

  • Preparo está ligado à sensação de prontidão, comando e disposição das forças, mas também à comunicação dessa prontidão à sociedade.


É justamente nessa segunda dimensão que o estudo sugere um desafio estratégico de comunicação pública.


Capacidade consolidada, preparo em disputa narrativa


A diferença de 15 pontos percentuais entre os indicadores de “capacidade” (81%) e “preparo” (65%) indica que, embora a população reconheça a solidez operacional das forças de segurança, nem todos percebem essa força como disponível e ativa. Em outras palavras: o governo é visto como tecnicamente capaz, mas nem sempre como pronto e comunicativo quanto a isso.


Essa lacuna evidencia o papel crítico da comunicação institucional em segurança pública. Enquanto a capacidade depende de fatos concretos — efetivos, estrutura, resultados — o preparo é percepção projetiva, construída a partir de narrativas de autoridade, símbolos de comando e visibilidade da ação estatal.Quando o governo comunica de modo eficaz seu estado de prontidão, ele gera sensação de segurança preventiva; quando falha, abre espaço para o medo e a incerteza, mesmo que as condições técnicas estejam consolidadas.


Assim, o desafio para Goiás é traduzir competência em confiança. Os números sugerem que a população acredita no aparato policial e na gestão da segurança, mas ainda carece de mensagens claras e consistentes sobre a prontidão e coordenação das forças diante de ameaças externas — especialmente no contexto da expansão de facções interestaduais.


Diferenças regionais: confiança no interior, cautela metropolitana


O recorte regional confirma padrões observados em outras variáveis da pesquisa:

  • Interior: 66,8% afirmam que o estado está preparado e 83,3% que tem capacidade, demonstrando um forte vínculo de confiança institucional e política com o governo estadual. A proximidade com lideranças locais e a visibilidade de ações concretas (patrulhamento, operações conjuntas, resultados divulgados) reforçam a percepção de estabilidade e presença do Estado.

  • Região metropolitana: os índices são levemente inferiores — 64,1% consideram o estado preparado e 78,6% acreditam que tem capacidade.


Esse resultado reflete maior sensibilidade ao noticiário nacional e às comparações com grandes centros urbanos, onde a criminalidade é mais visível e a expectativa de eficiência é mais alta. O ambiente urbano tende a gerar uma percepção mais crítica e volátil, em que a confiança depende de sinais imediatos de ação.


Diferenças por sexo: força percebida e sensibilidade à vulnerabilidade


A segmentação por sexo mostra uma tendência consistente:

  • Homens expressam maior confiança — 70,5% consideram Goiás preparado e 85,3% reconhecem capacidade técnica.

  • Mulheres, por outro lado, são mais cautelosas: 60,6% dizem que o estado está preparado e 76,9% acreditam em sua capacidade.


Essa diferença pode ser interpretada sob duas óticas complementares:

  1. Percepção diferenciada do risco — o público feminino tende a avaliar segurança pública não apenas em termos de confronto, mas também de proteção cotidiana, e é mais sensível à ausência de comunicação preventiva.

  2. Distância simbólica da ação repressiva — enquanto homens associam a capacidade policial à eficiência da força, as mulheres costumam ponderar os impactos sociais da violência e esperam um discurso mais equilibrado entre autoridade e cuidado.


Essa assimetria reforça a importância de diversificar a comunicação em segurança: para públicos masculinos, a ênfase deve recair sobre a eficácia operacional; para públicos femininos, sobre a presença e a confiabilidade do Estado como protetor, não apenas como força.


Consideração


Os dados revelam que Goiás atingiu um alto grau de confiança estrutural em sua política de segurança, mas ainda precisa ampliar a percepção de prontidão e visibilidade da ação. Em termos de marketing público, o governo estadual deve investir em estratégias de comunicação de risco e autoridade positiva, capazes de transformar resultados técnicos em sensação compartilhada de segurança.


Para consolidar a imagem de um estado preparado, a narrativa precisa ser contínua, integrada e visualmente assertiva — mostrando não apenas o enfrentamento, mas a coordenação, o planejamento e a antecipação. Essa comunicação é também um ativo político: ao reforçar que Goiás está preparado e vigilante, o governo projeta não apenas segurança pública, mas estabilidade moral e institucional, atributos fundamentais para qualquer liderança que busque projeção nacional.



O vazio federal na segurança: o custo político da ausência percebida


A pesquisa revela um dado eloquente: 73,4% dos goianos afirmam que o Governo Federal “não tem ajudado” os estados no combate às organizações criminosas, enquanto apenas 13,1% consideram que tem ajudado muito e 10,3% que tem ajudado pouco. Essa percepção negativa, praticamente hegemônica, não se limita à esfera técnica — ela expressa um sentimento difuso de abandono federal diante da escalada da criminalidade, com implicações diretas para a política nacional de 2026.


Em um país em que a segurança pública se tornou o principal marcador de confiança política, a ideia de que o governo federal “não age” ou “não apoia” equivale, simbolicamente, a uma perda de autoridade moral. O eleitor pode até admitir falhas em áreas sociais, mas não tolera a sensação de ausência no campo da segurança, que é, na prática, o eixo psicológico da estabilidade coletiva.


O custo político para o governo federal


O dado de 73% de percepção negativa sinaliza um ponto de vulnerabilidade crítica para o projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele reforça a leitura, já presente em setores conservadores e moderados, de que o atual governo subestima a dimensão simbólica da segurança e terceiriza a responsabilidade para os estados. Esse distanciamento tende a ser explorado de maneira intensa por governadores e pré-candidatos da direita e centro-direita, que se apresentarão como “protagonistas da ordem”, em contraste com a imagem de um governo federal leniente ou hesitante.


A situação se agrava porque, mesmo entre eleitores que reconhecem avanços sociais e econômicos, a segurança é um tema emocional, e emoções superam argumentos racionais em períodos eleitorais. Assim, a ausência de respostas federais robustas — tanto em ações concretas quanto em comunicação — abre um flanco narrativo decisivo para os adversários: o de que o governo “não controla o território”, “não defende o cidadão comum” e “não protege os estados”.


No curto prazo, essa percepção fortalece governadores como Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas, que dominam o discurso de autoridade e se apresentam como símbolos da eficiência descentralizada. No médio prazo, se o Planalto não reposicionar sua comunicação, o tema pode cristalizar-se como o principal vetor de erosão da imagem presidencial fora dos grandes centros do Nordeste.


Diferenças regionais: a crítica mais dura no interior


A leitura regional reforça o padrão conservador do eleitorado goiano:

  • 77,4% dos entrevistados do interior afirmam que o governo federal não tem ajudado,

  • contra 69,2% na região metropolitana.


O interior, historicamente, associa segurança à presença visível do Estado — viaturas, policiamento ostensivo, autoridade.

A ausência percebida do governo federal é, portanto, entendida como abandono institucional, o que alimenta a retórica da autonomia estadual e fortalece a legitimidade política dos governadores que se apresentam como “autossuficientes” em matéria de segurança.


Já na região metropolitana, embora o número de críticos ainda seja majoritário, há maior exposição a discursos pluralizados e a uma cobertura jornalística mais diversa, o que suaviza a unanimidade negativa.


Diferenças por sexo: desconfiança compartilhada, motivações distintas


A diferença entre gêneros também é reveladora:

  • 76% dos homens e 70,9% das mulheres consideram que o governo federal não tem ajudado os estados.No entanto, as motivações parecem distintas.


Entre os homens, predomina uma leitura de ineficiência operacional e ausência de autoridade, que reforça a visão de que o governo federal é “fraco” diante da criminalidade.

Entre as mulheres, há um componente mais emocional e moral: a percepção de insegurança cotidiana, de vulnerabilidade pessoal, e de que o governo não comunica proteção nem proximidade. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: perda de confiança e distanciamento político.


Hipótese nacional: o efeito dominó da ausência


Embora a pesquisa tenha sido realizada apenas em Goiás, os dados permitem formular uma hipótese de comportamento nacional: a insegurança pública tende a se tornar o novo divisor político das eleições de 2026. Com o governo federal avaliado como ausente, e lideranças estaduais conservadoras consolidando discursos de prontidão e eficiência, a narrativa da “ordem” tende a se sobrepor à da “inclusão” como eixo de mobilização eleitoral.


Essa inversão é particularmente sensível entre eleitores de classe média e trabalhadores do interior — segmentos que, desde 2018, têm funcionado como base de sustentação da direita.


Se a economia mantiver estabilidade moderada e o tema da segurança seguir no centro da agenda pública, o pleito de 2026 pode reproduzir um cenário semelhante ao de 2018 e 2022, com a esquerda defendendo conquistas sociais e a direita mobilizando medo, indignação e desejo de autoridade.


Para Lula, isso significa que a reeleição dependerá menos de resultados econômicos e mais da capacidade de comunicar autoridade moral e domínio do território.Para Caiado e demais governadores do campo conservador, significa oportunidade estratégica de nacionalização — não apenas como gestores, mas como símbolos de competência e coragem diante da omissão federal.


Consideração


Os números expõem um descompasso entre ação técnica e comunicação política no plano federal.


A ausência de uma narrativa proativa sobre segurança pública não apenas mina a confiança imediata, mas redistribui capital simbólico: cada ponto percentual de descrédito do governo federal se converte, potencialmente, em fortalecimento dos líderes estaduais.


Em Goiás, esse processo já é nítido: Caiado ocupa o vácuo federal com o discurso da presença, enquanto o governo federal é percebido como distante e lento.Se esse padrão se reproduzir em outros estados, a eleição de 2026 poderá ser disputada não entre “projetos de país”, mas entre “estilos de autoridade” — o que recoloca o campo da direita, e especialmente seus governadores, em posição de vantagem narrativa.



A presença simbólica das facções: o medo silencioso e o desafio da autoridade


O último bloco da pesquisa aborda um aspecto sensível e revelador: a percepção dos goianos sobre a presença de facções criminosas — PCC e CV — em seus municípios.Os dados indicam que 63,4% afirmam já ter visto pichações com as siglas dessas facções, sendo 22,3% que “veem sempre” e 41,1% que “viram algumas vezes”. Apenas 36,6% dizem nunca ter visto tais marcas.


Mesmo sem que o estudo busque comprovar a presença efetiva dessas organizações, o número é alto o suficiente para revelar um sentimento difuso de infiltração simbólica, um tipo de “presença percebida” que, em termos de psicologia coletiva, tem efeitos quase tão intensos quanto a presença real.


O poder da marca e a erosão simbólica do Estado


As pichações do PCC e do CV funcionam como marcadores territoriais e psicológicos. São signos de domínio informal que competem com os símbolos do Estado — viaturas, fardas, quartéis — e, quando se tornam visíveis em muros e fachadas, reconfiguram o mapa mental da segurança. Mesmo que a criminalidade esteja controlada nos indicadores formais, a percepção de que o crime “se faz ver” gera a sensação de vulnerabilidade e impotência estatal.


Esse tipo de sinalização pública cria um paradoxo comunicacional para o governo de Goiás: enquanto o Estado afirma estar preparado e capacitado para enfrentar o crime organizado, a rua comunica o oposto. A “linguagem dos muros” — visível, anônima, repetida — produz ruído na narrativa oficial de segurança e compromete o esforço de comunicação institucional, especialmente entre moradores das periferias urbanas e das cidades do interior.


Em resumo, o dado sugere uma vitória simbólica das facções, não necessariamente operacional, mas perceptiva — e percepção, no campo da segurança pública, é poder político.


O risco de retaliação e o medo difuso


Outro elemento que emerge de forma implícita é o medo de retaliação.O contexto nacional, após a megaoperação no Rio de Janeiro que resultou em mais de 120 mortos, acendeu entre os goianos a preocupação de que as facções possam reagir em outros estados.

Essa apreensão não se manifesta abertamente, mas pode estar camuflada sob o discurso da cautela, o que explica o alto percentual de entrevistados que “já viram” pichações, ainda que sem contato direto com ações violentas.


Esse medo silencioso opera como uma camada subterrânea da opinião pública: ele não é facilmente captado por indicadores tradicionais, mas influencia a confiança nas instituições e pode fragilizar a sensação de controle e de segurança coletiva. Para o governo estadual, trata-se de um ponto crítico de gestão da percepção — não apenas combater o crime, mas mostrar-se presente nos espaços simbólicos onde o crime reivindica visibilidade.


Diferenças regionais: o interior vulnerável e a metrópole em alerta


As diferenças regionais reforçam um padrão coerente com os demais indicadores da pesquisa:

  • Na região metropolitana, 26,7% afirmam ver sempre e 44,4% dizem ver algumas vezes as pichações.Aqui, a exposição à imagem das facções é maior, tanto pela densidade urbana quanto pela circulação de narrativas midiáticas que alimentam o imaginário da criminalidade. O cidadão metropolitano, mesmo distante de atos concretos, vive sob a tensão da possibilidade — o crime “está perto”.

  • No interior, os índices são menores (12,7% veem sempre e 33,9% veem às vezes), mas o dado relevante é outro: 53,4% dizem nunca ter visto, o que pode refletir tanto maior sensação de segurança local quanto um silêncio de medo, uma tendência à negação para afastar o tema do cotidiano.


Historicamente, comunidades menores reagem ao medo com silêncio e afastamento, não com verbalização — o que indica que a ausência de registro não necessariamente significa ausência de risco.


Diferenças por sexo: vulnerabilidade simbólica e percepção da ameaça


A análise por sexo mostra nuances significativas:

  • Homens tendem a relatar mais exposição direta às pichações (25,8% veem sempre) e menos negação do fenômeno (29,7% nunca viram).

  • Mulheres, por sua vez, apresentam uma percepção mais contida — 19% veem sempre, mas 43,4% dizem nunca ter visto.


Essa diferença parece refletir um mecanismo de defesa emocional. Mulheres, em média, tendem a evitar contato com símbolos de ameaça, especialmente em temas relacionados à violência e ao crime organizado.Por outro lado, entre os homens, há maior naturalização do risco — o que não implica menor medo, mas um tipo de familiaridade tensa com o ambiente da insegurança.


Em ambos os casos, a presença simbólica das facções atua como um fator de fragmentação da confiança pública: cada grupo reage de modo distinto, mas o resultado é o mesmo — erosão da sensação de controle estatal.


Implicações para o governo e o projeto político de Caiado


A percepção de que as facções deixam marcas visíveis em Goiás representa um ponto de vulnerabilidade narrativa para o governo estadual. Caiado construiu sua imagem política sobre o tripé autoridade, competência técnica e controle territorial. Se a população começa a perceber — ainda que de modo simbólico — que o crime organizado “tem voz” ou “marca presença”, isso atinge diretamente o núcleo simbólico de seu projeto político.


No plano operacional, o governo mantém bons índices de aprovação e é reconhecido como capaz e preparado; mas, no plano comunicacional, há sinais de saturação narrativa. O discurso de força e autoridade precisa ser complementado por ações visíveis de retomada do espaço público — tanto no enfrentamento direto quanto na reocupação simbólica do território.


A pior ameaça, para qualquer liderança associada à ordem, não é o crime em si, mas o sentimento de que o Estado perdeu o monopólio do medo. E o medo, quando muda de dono, muda também o equilíbrio político.


Consideração


O resultado desta questão, somado às anteriores, revela um quadro complexo: Goiás é percebido como tecnicamente capaz e moralmente disposto a enfrentar o crime, mas ainda vulnerável na batalha simbólica pela autoridade do território.


As pichações com siglas de facções funcionam como sintomas visuais de uma disputa narrativa — entre o Estado que promete segurança e o crime que comunica presença.


Para o governo Caiado, o desafio não é apenas agir, mas mostrar-se onipresente.A consolidação de um discurso de prontidão permanente — aliado à intensificação da comunicação comunitária e à vigilância simbólica — será determinante não só para a segurança pública, mas para a sustentabilidade política de seu projeto nacional em 2026.


Conclusão: autoridade, percepção e o novo mapa simbólico da segurança


O estudo alcançou plenamente seus objetivos ao mapear a percepção dos goianos sobre a megaoperação policial no Rio de Janeiro, o posicionamento de líderes políticos diante do episódio e, sobretudo, avaliar os reflexos dessa agenda na imagem do governador Ronaldo Caiado e na confiança pública na segurança de Goiás.


A pesquisa revela um cenário de alta visibilidade, amplo apoio e confiança técnica nas forças de segurança estaduais, mas também um campo de vulnerabilidade simbólica que exige atenção redobrada: a comunicação da prontidão e a disputa pela narrativa do território.


1. Visibilidade e consciência pública: operação amplamente conhecida


O primeiro resultado é contundente: 99% dos goianos acompanharam o noticiário sobre a operação no Rio de Janeiro. Esse dado, aliado ao perfil de respondentes (amostra web, com maior escolaridade e renda), indica um eleitor informado, conectado e com elevada capacidade de formulação de opinião. Esse público não apenas consome notícias — ele as interpreta e as relaciona à performance de seus próprios governantes.


Assim, a operação no Rio funcionou como um teste de percepção indireto para Caiado e para o governo federal, expondo contrastes entre estilos de autoridade, eficiência e comunicação.


2. Apoio à ação policial: o predomínio da autoridade moral


A aprovação à operação foi massiva (82,3%), especialmente entre homens e moradores do interior, o que confirma a força de valores de ordem, disciplina e autoridade na cultura política goiana. Esse apoio se ancora em uma leitura moral: o cidadão reconhece na ação policial não apenas uma operação técnica, mas um ato simbólico de enfrentamento ao mal.


Por outro lado, a desaprovação (16,8%) concentra-se entre mulheres e habitantes da região metropolitana, que interpretam o uso extremo da força de modo mais crítico ou empático. Essa diferença revela um campo de sensibilidade que precisa ser considerado na comunicação de governo, equilibrando firmeza com empatia e autoridade com humanidade.


3. Avaliação dos governos: Caiado consolida liderança; Lula sofre rejeição


No campo da imagem política, a pesquisa evidencia um abismo de percepções:

  • Ronaldo Caiado tem 76,8% de aprovação na área de segurança, um índice excepcional para uma política pública estrutural.

  • Lula é avaliado negativamente por 80,5%, e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, por 76,2%.


Esses dados reforçam o papel de Caiado como referência nacional em segurança pública, reconhecido por sua base como líder técnico e moral em contraste à imagem de inércia atribuída ao governo federal. Na prática, essa percepção nacionaliza a figura do governador, projetando-o como alternativa viável e legítima no campo da direita moderada para 2026.


4. Apoio ao gesto de Caiado: capital simbólico em expansão


O apoio de 79,7% à decisão de Caiado de se posicionar publicamente ao lado dos governadores de direita durante a operação reforça sua imagem de estadista que age por convicção, não por oportunismo. Mais do que um ato de solidariedade institucional, o gesto foi interpretado como coerente com sua trajetória política e com o ethos conservador do eleitorado goiano.


Regionalmente, o interior (85,7%) e os homens (84%) sustentam os índices mais altos de aprovação — públicos centrais para o núcleo político de Caiado e para sua possível nacionalização.


5. Capacidade e preparo de Goiás: confiança técnica, desafio de percepção


Os goianos reconhecem que o estado tem capacidade (81%) e está preparado (65%) para enfrentar o crime organizado. A diferença entre “capacidade” e “preparo” indica um descompasso comunicacional: a população confia nos recursos e na eficiência das forças, mas ainda não percebe a prontidão como uma presença constante.


Trata-se de um desafio de comunicação estratégica, não operacional: é preciso transformar força técnica em sensação pública de vigilância e proteção.A prontidão deve ser comunicada como valor — por meio de narrativas, símbolos, presença comunitária e visibilidade digital contínua.


6. O vazio federal: o governo Lula e o custo da ausência


O contraste é claro: 73,4% dos goianos acreditam que o governo federal “não tem ajudado” os estados no combate às organizações criminosas. Essa percepção não se restringe a Goiás — ela antecipa uma tendência nacional de erosão da confiança no governo federal por ausência simbólica e falta de narrativa de autoridade.


Se não houver reposicionamento, esse tema pode se converter em vetor eleitoral decisivo em 2026, deslocando o debate do campo econômico para o campo moral e securitário, onde a direita possui vantagem discursiva consolidada.Em contrapartida, líderes estaduais como Caiado e Tarcísio de Freitas tendem a colher dividendos políticos dessa lacuna federal.


7. Sinais do crime: o poder simbólico das facções


O dado mais sensível do estudo: 63,4% dos goianos já viram pichações do PCC ou CV em suas cidades. Independentemente de representarem presença real ou simbólica, esses registros produzem sensação de vulnerabilidade e medo difuso, enfraquecendo a percepção de controle estatal.


O problema aqui é menos operacional e mais simbólico: o crime se faz ver — e quando o crime se mostra, o Estado se torna invisível. O risco é que esse sentimento de presença do crime corroa o pilar de autoridade e competência que sustenta a imagem política de Caiado. A resposta precisa ir além da repressão: exige uma estratégia de ocupação simbólica e comunicacional dos territórios, para que a narrativa da segurança não seja monopolizada pelo medo.


Síntese final


Em suma, o estudo mostra que a autoridade em Goiás está consolidada, mas precisa ser continuamente comunicada. O governo goiano é visto como competente, firme e confiável, mas enfrenta o desafio de traduzir força técnica em segurança emocional.O eleitor goiano acredita em Caiado — e espera dele não apenas ação, mas a presença constante de um Estado que vê, age e protege.


Consideração do Mario Neto


Este texto acabou ficando bem maior do que eu imaginava. Talvez não seja o modelo ideal de comunicação, mas quis fazer algo diferente: compartilhar, de forma aberta, uma análise completa de um relatório de pesquisa da Grupom — algo a que pouquíssimas pessoas já tiveram acesso. Espero sinceramente que essa experiência tenha sido útil e interessante para você.

Este é um projeto de publicação semanal.

Todas as imagens foram geradas por inteligência artifical.

Todos os gráficos foram gerados pela GRUPOM e estão disponíveis no relatório deste estudo.


PARA TER ACESSO AO RELATÓRIO COMPLETO CLIQUE AQUI.


Eu gostaria de saber a sua opinião sobre este texto!


Sobre mim:

Possuo graduação em Engenharia de Produção Mecânica pela Universidade Federal de Santa Catarina (2002) e mestrado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2005). Tenho experiência na área de Engenharia de Produção, com ênfase em Desenvolvimento de Produto, Inovação e Pesquisa de Mercado e Análise do Consumidor. Atualmente sou Diretor Executivo da GRUPOM Consultoria.

 
 
 

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