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O Nordeste e a Potencial Guinada à Direita: A Violência como Fator Decisivo na Erosão do Apoio Lulista

  • gilbgna6
  • 20 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

nov 20, 2025


Dando sequência ao exame iniciado em O País que Deixou de Acreditar e aprofundado em O Perfil do Apoio ao Governo Lula e a Arquitetura da Dependência Política no Brasil, este texto volta ao relatório da Genial/Quaest de novembro de 2025 para explorar um aspecto crucial do cenário atual: a possibilidade de que a violência se torne o fator capaz de reordenar o comportamento político no Nordeste.


O conteúdo apresentado indica um quadro de fadiga eleitoral na região, tradicional bastião do lulismo, que ainda registra aprovação de cinquenta e nove por cento no gráfico “Aprovação do governo Lula | Região”. Trata-se, porém, de uma estabilidade frágil, que convive com sinais claros de erosão capazes de alterar o eixo político nordestino.


O desgaste não se limita ao Nordeste. Cinquenta e oito por cento dos brasileiros avaliam que o país está na direção errada segundo o gráfico “O Brasil está indo na direção certa ou na direção errada?”. Além disso, quarenta e seis por cento afirmam ver mais notícias negativas que positivas, conforme o gráfico “Tem visto notícias mais positivas ou mais negativas sobre o governo Lula?”. Soma-se a isso um dado politicamente corrosivo: sessenta e três por cento dizem que Lula não está cumprindo o que prometeu, segundo o gráfico “Você acha que Lula…”.





No campo econômico, a pressão cotidiana pesa sobre os segmentos mais vulneráveis. Sessenta e um por cento dos que ganham até dois salários mínimos afirmam que o preço dos alimentos subiu, conforme o gráfico “O preço dos alimentos nos mercados ____ no último mês? | Renda familiar”, enquanto setenta e dois por cento relatam perda de poder de compra no gráfico “Comparado a um ano atrás, o poder de compra dos brasileiros hoje é…”. Para uma região profundamente dependente de programas de transferência, esse cenário questiona a sustentabilidade política do assistencialismo.



Nesse ambiente, a violência emerge como fator de ruptura. Se a economia fragiliza a confiança, a insegurança fragiliza a lealdade.


A Percepção de Violência no Nordeste e Sua Interseção com o Assistencialismo


A sensibilidade à violência está crescendo. Setenta e oito por cento dos nordestinos afirmam que a violência no Rio de Janeiro é maior que a de seu próprio estado, segundo o gráfico “Para você, a violência no Rio é ____ que no seu estado? | Região”. Essa comparação produz inquietação e funciona como lente para interpretar a própria vulnerabilidade local.



Apesar de beneficiários do Bolsa Família exibirem alta aprovação ao governo, a demanda por medidas de endurecimento cresce. No gráfico “Principal medida para melhorar a segurança e reduzir a violência | Região”, leis mais rígidas, policiamento ostensivo e combate direto a facções correspondem juntas à maior parcela das respostas, sendo sessenta e nove por cento no Nordeste.



Esse conflito estrutural revela o limite do assistencialismo. Ele garante estabilidade mínima, mas não responde a preocupações existenciais como a segurança física. É nesse ponto que autores como James C. Scott lembram que populações vulneráveis toleram dependência enquanto sentem proteção mínima. Quando a proteção falha, a lógica política muda. O lulismo depende de vulnerabilidade econômica; mas quando a ameaça se torna física, o cálculo eleitoral se altera.


O Perfil Moderado dos Independentes e a Inclinação Pragmática


O comportamento dos independentes é um dos sinais mais claros de possível realinhamento. No gráfico “A polícia exagerou na força empregada na mega operação? | Posicionamento político”, sessenta e quatro por cento discordam do argumento de exagero policial. E trinta e sete por cento apoiam a realização de operações semelhantes em seus estados, conforme o gráfico “Gostaria de uma operação igual no seu estado? | Posicionamento”.



Esse pragmatismo se expressa também no apoio a propostas de endurecimento penal. Mesmo entre lulistas, medidas como aumento de penas e tipificação de organizações criminosas como terroristas recebem apoio significativo. Esse padrão confirma a tese de Albert Hirschman sobre “lealdade tensa”: grupos que permanecem fiéis a um projeto político podem abandoná-lo subitamente quando percebem que sua sobrevivência está em risco.


A região, portanto, não é essencialmente progressista. É uma região que valoriza a proteção e aceita o assistencialismo enquanto ele funciona como amortecedor. Quando a insegurança aumenta, o assistencialismo perde eficácia simbólica.


O Assistencialismo como Acomodação e Seu Limite Diante da Insegurança


O lulismo construiu uma aliança política duradoura baseada em renda mínima, reconhecimento simbólico e narrativa de inclusão. Entretanto, esse arranjo depende de estabilidade. Quando a violência cresce e a economia piora, a engrenagem se desgasta.


A aprovação ao governo no Nordeste diminui conforme aumentam escolaridade e renda, de acordo com os gráficos “Aprovação do governo Lula | Renda familiar” e “Aprovação do governo Lula | Escolaridade” e já analisados no artigo anterior, O Perfil do Apoio ao Governo Lula e a Arquitetura da Dependência Política no Brasil. A região demonstra uma latente predisposição conservadora que emerge em momentos de crise, reforçando a premissa de Samuel Huntington de que a ordem é um valor estruturante em sociedades marcadas por fragilidade institucional.


É também nesse ponto que André Singer se torna fundamental: suas análises sobre o “subproletariado lulista” mostram que a base do lulismo permanece leal enquanto o governo entrega estabilidade mínima. Quando os pilares de renda, proteção e reconhecimento enfraquecem simultaneamente, essa coalizão tende a se reconfigurar.


A própria incerteza sobre as intenções presidenciais aparece na pesquisa: altas taxas de eleitores afirmam não confiar que Lula seja bem-intencionado ou capaz de cumprir o que promete. Isso cria espaço para o que Frances Hagopian descreve como “reconfiguração de lealdades em contextos de exaustão institucional”.


Ruptura, Reconstrução e a Ação Possível da Direita


As dinâmicas que se acumulam sugerem que o Nordeste pode estar entrando em um ponto de inflexão. Mas um realinhamento não ocorre sozinho. Ele precisa de recepção política.


Um bloco opositor só conseguirá disputar o Nordeste se agir em três frentes articuladas, sem superficialidade e sem copiar o lulismo.

  1. Reposicionar a segurança pública como eixo estruturante

    É indispensável apresentar políticas de segurança como política de Estado. Isso significa planos operacionais, metas, pactos regionais e capacidade de execução. Charles Tilly lembra que Estados só se consolidam quando demonstram capacidade de proteger seus cidadãos.

  2. Oferecer mobilidade econômica real em vez de dependênciaA direita precisa mostrar que autonomia não é abandono. Incentivos ao empreendedorismo, transição da informalidade, formação técnica e redes locais de produção podem reconstruir a noção de futuro. Daron Acemoglu demonstra que instituições inclusivas — e não benefícios compensatórios — sustentam crescimento duradouro.

  3. Demonstrar na prática aquilo que se promete no discursoA reconstrução começa nos estados. Governadores que se apresentam como alternativa precisam provar que conseguem entregar resultados reais. José Murilo de Carvalho observa que a legitimidade no Brasil é construída pela prática administrativa e não pela retórica.


Implicações Eleitorais e Estratégias para uma Mudança Paradigmática

A guinada à direita no Nordeste torna-se plausível por três dinâmicas convergentes: desgaste profundo da imagem presidencial, insegurança como preocupação central e independentes abertos a discursos de autoridade.

A oposição deve explorar essa janela estratégica. Precisa reposicionar segurança como política de Estado e integrá-la ao desenvolvimento econômico e à mobilidade social real.

Governadores e prefeitos de direita no Nordeste devem demonstrar resultados concretos: segurança efetiva combinada com emprego formal. Essa combinação desmonta o monopólio assistencialista do PT.


Candidatos presidenciáveis de direita precisam construir narrativa específica para o Nordeste, mostrando que autonomia não é abandono, que ordem não é autoritarismo e que resultados locais podem ser provas públicas replicáveis.


O momento é único. A erosão está em curso. A violência pode ser o divisor de águas. Quem oferecer segurança com desenvolvimento conquista o eleitorado que o lulismo sustentou por duas décadas.



AUTORES E OBRAS CITADOS

2. Albert HirschmanExit, Voice and Loyalty
3. James C. ScottWeapons of the Weak
4. Samuel HuntingtonPolitical Order in Changing Societies

6. Daron AcemogluPor que as nações fracassam
7. José Murilo de CarvalhoCidadania no Brasil
8. André SingerOs Sentidos do Lulismo

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