O que faz uma escolha parecer boa o bastante?
Decidir também é saber quando parar de procurar.
Leandro Rodrigues - Há 3 horas

No texto anterior, A eleição chegou. O entusiasmo, não, parti de um dado da Real Time Big Data, publicada em 24 de setembro de 2026, que parecia dizer algo além da própria corrida eleitoral: 55% dos entrevistados afirmaram não estar animados com a eleição presidencial. A hipótese era que uma parcela do eleitorado talvez esteja chegando à reta final não apenas tarde, mas cansada, quiçá desinteressada, com pouca disposição para continuar entregando atenção a uma campanha que já ocupa bastante espaço. Se isso estiver acontecendo, surge uma pergunta que me parece ainda mais interessante do que saber quando o eleitor finalmente decide: quanto esforço ele está disposto a fazer antes de considerar que já decidiu o suficiente?
A pergunta parece estranha porque gostamos de imaginar decisões importantes como processos cuidadosos e quase completos. Primeiro conhecemos as alternativas, depois reunimos informações, comparamos vantagens e desvantagens e, ao final, escolhemos a melhor opção disponível. Na vida real, raramente fazemos isso. Não conhecemos todos os restaurantes de uma cidade antes de escolher onde jantar. Não visitamos todos os apartamentos disponíveis antes de assinar um contrato. Tampouco comparamos todos os celulares do mercado antes de trocar de aparelho. Em algum momento, encontramos algo que atende suficientemente ao que procuramos e paramos.
A política não está fora dessa lógica. O eleitor também precisa decidir quando já viu o bastante, ouviu o bastante e comparou o bastante. Pode continuar procurando, assistir a mais uma entrevista, ler mais uma análise, acompanhar mais uma pesquisa. Mas cada nova informação custa tempo e atenção, e talvez acrescente cada vez menos àquilo que ele já pensa. Antes de perguntar qual candidato parece melhor, portanto, existe uma decisão menos visível: em que momento vale a pena parar de procurar?
Ninguém pesquisa para sempre
Herbert Simon percebeu há décadas que boa parte das teorias sobre decisão exigia das pessoas algo que pessoas reais dificilmente conseguem fazer. O indivíduo idealizado conhece todas as alternativas, calcula suas consequências e identifica a opção ótima. O indivíduo real decide com tempo limitado, informação incompleta e capacidade finita de processar tudo o que encontra. Simon chamou de satisficing uma estratégia muito mais próxima do nosso cotidiano: em vez de procurar indefinidamente a melhor alternativa possível, buscamos uma que alcance determinado nível considerado aceitável. Quando ela aparece, a busca pode terminar.
Em português menos técnico, trata-se de encontrar algo bom o bastante.
Isso não significa aceitar qualquer coisa por preguiça ou desinteresse. Significa reconhecer que procurar também tem custo. Posso continuar visitando restaurantes durante duas horas para tentar descobrir se existe um lugar um pouco melhor, mas talvez a vantagem de encontrá-lo não compense a fome e o tempo perdido. Uma ampla revisão da literatura sobre satisficing mostra justamente que, em situações de incerteza, interromper a busca depois que encontramos uma alternativa satisfatória pode ser uma estratégia bastante razoável, e não uma simples falha de racionalidade.
Esse ponto é especialmente útil quando pensamos o eleitor tardio. A pessoa que chegou nas últimas semanas sem acompanhar intensamente a eleição não precisa recuperar todos os meses anteriores para conseguir votar. Ela pode trabalhar com aquilo que já possui: algumas avaliações do governo, rejeições, simpatias partidárias, lembranças de candidatos, opiniões sobre temas específicos e impressões acumuladas em conversas ou notícias encontradas pelo caminho. Talvez nenhum desses elementos, isoladamente, constitua ainda um voto pronto. Mas eles podem ser suficientes para construir uma escolha quando chegar a hora.
A preferência pode ser construída na hora
Jon Krosnick ajuda a entender essa diferença. Ao estudar como as pessoas respondem perguntas de opinião, ele e seus colaboradores mostraram que nem todo julgamento está simplesmente armazenado na memória à espera de ser recuperado. Às vezes possuímos uma opinião bastante consolidada e respondemos imediatamente. Em outras situações, temos apenas diferentes “ingredientes” disponíveis e precisamos reuni-los para formar uma avaliação. A pessoa pode ter informações relevantes e ainda assim não possuir uma resposta pronta.
Isso é importante porque modifica nossa interpretação de expressões como “não sei” ou “ainda não decidi”. Elas não significam necessariamente ausência completa de preferências.
Alguém pode ainda não ter transformado suas considerações numa escolha claramente acessível. Nos experimentos analisados por Krosnick e seus colegas, pessoas com informações relevantes na memória podiam evitar o trabalho de combiná-las quando a tarefa parecia exigir mais esforço do que estavam dispostas a realizar. A probabilidade desse tipo de simplificação aumentava quando a motivação era menor, a tarefa era mais difícil ou a capacidade de realizar aquele processamento estava mais pressionada.
Não devemos confundir uma resposta de questionário com um voto. Mas a distinção ajuda a pensar aquilo que venho chamando de eleitor tardio. Ele pode não possuir uma preferência pronta hoje e, ao mesmo tempo, carregar quase todas as peças que utilizará quando precisar decidir.
Quando a eleição se aproxima, não começa necessariamente uma longa investigação. Pode apenas reunir parte do que já sabe, acrescentar uma ou duas informações recentes e concluir que uma candidatura satisfaz aquilo que considera necessário.
Para organizar essa diferença, proponho pensar em duas coisas. A primeira é um teto de esforço: quanto tempo, atenção e energia estou disposto a gastar para resolver uma escolha. A segunda é um limiar de suficiência: o que uma alternativa precisa oferecer para que eu considere que já basta. Não estou atribuindo esses dois nomes a Simon ou Krosnick. São apenas uma maneira de tornar visível algo que suas abordagens ajudam a perceber.
As duas dimensões não são a mesma coisa. Um eleitor pode estar disposto a acompanhar intensamente a eleição e exigir muito antes de decidir. Outro pode dedicar pouquíssimo tempo, mas carregar uma identificação tão forte que encontra rapidamente uma opção considerada suficiente. Há ainda quem pretenda gastar pouco esforço e, mesmo assim, não encontre uma alternativa que atravesse sua régua mínima. Essa pessoa pode permanecer indecisa durante semanas sem passar essas semanas deliberando intensamente.
Demorar para decidir não significa necessariamente pensar muito sobre a decisão. Essa talvez seja uma das chaves para compreender o eleitor tardio.
Quanto esforço uma escolha merece?
Há um fator óbvio, mas frequentemente esquecido: não dedicamos a mesma energia a todas as decisões. Quando algo nos interessa muito, aceitamos gastar mais tempo procurando, comparando e aprendendo. Quando a tarefa parece pouco importante, repetitiva ou distante, o mesmo esforço começa a parecer caro muito antes. Estudos recentes sobre decisões de consumo mostram exatamente essa diferença. O peso de um grande conjunto de alternativas muda quando a pessoa se sente realmente envolvida com a decisão. Em situações de maior envolvimento, há indivíduos mais dispostos a continuar procurando informação. Quando o envolvimento é baixo, os custos da busca passam a incomodar mais.
Isso não prova como o eleitor brasileiro vota. Mas ajuda a formular a pergunta de maneira melhor. Talvez não exista simplesmente uma eleição “fácil” ou “difícil”. A mesma eleição pode representar tarefas completamente diferentes para pessoas diferentes. Para alguém profundamente interessado em política, acompanhar candidatos, propostas, pesquisas e debates pode fazer parte da rotina. Para outro eleitor, cada meia hora adicional dedicada ao tema precisa competir com muitas outras coisas que lhe parecem mais urgentes ou agradáveis.
O limiar de suficiência também pode variar. Uma pessoa que considera a escolha decisiva talvez queira sentir alto grau de segurança antes de parar. Outra pode considerar suficiente encontrar um candidato que não ultrapasse determinadas rejeições, represente uma posição política geral com a qual concorda ou simplesmente lhe pareça preferível às alternativas mais conhecidas.
Em algum momento, todos sentimos que já pesquisamos o suficiente; o que varia é o momento em que chegamos a esse ponto.
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Quando ter mais opções não ajuda tanto
A quantidade de alternativas também pesa. Existe uma crença intuitiva de que mais opções são sempre melhores porque ampliam nossa liberdade de escolha. Em princípio, faz sentido: quanto maior o conjunto disponível, maior a chance de encontrarmos algo próximo do que desejamos. Mas um estudo clássico1 sobre escolha mostrou que conjuntos muito grandes podem tornar a decisão mais difícil e, em determinadas circunstâncias, reduzir a disposição para concluí-la. A literatura posterior2 refinou essa ideia: não existe uma regra simples segundo a qual “mais opções fazem mal”. O efeito depende da tarefa, de quem escolhe e do quanto aquela pessoa está envolvida com a decisão.
Quem sabe exatamente o que procura pode considerar vinte opções uma vantagem. Quem conhece pouco as diferenças entre elas talvez veja as mesmas vinte opções como vinte problemas adicionais. O ponto não é que variedade produza automaticamente paralisia. É que aumentar o número de alternativas não significa que aumentaremos nosso esforço na mesma proporção.
Há evidência eleitoral interessante nessa direção. Em um experimento com eleições primárias hipotéticas nos Estados Unidos3, participantes encontravam disputas com dois, quatro ou oito candidatos. À medida que o número de candidatos aumentava, eles gastavam menos tempo, em média, examinando cada perfil, relatavam maior sensação de sobrecarga e se tornavam mais propensos a escolher candidatos posicionados no início da cédula. No cenário com dois candidatos, o tempo médio dedicado a cada perfil foi de 24 segundos; com oito, caiu para 17 segundos. O resultado não significa que mais candidatos necessariamente produzam escolhas piores. Mostra algo mais útil para nosso problema: quando a tarefa cresce, a maneira de distribuir atenção também muda.
Isso combina bem com a ideia do teto de esforço. Se estou disposto a gastar determinada quantidade de atenção com uma escolha e, de repente, preciso comparar muito mais alternativas, posso até aumentar um pouco meu esforço total. Nada garante, porém, que eu vá multiplicá-lo na mesma proporção. Talvez examine menos cada opção, estabeleça filtros mais rápidos, descarte candidatos com base em poucas características ou simplesmente pare quando encontrar um nome que atravesse minha régua mínima. Trabalhos mais recentes sobre sobrecarga de escolha4 reforçam justamente esse ponto: interromper a busca não precisa significar incapacidade ou irracionalidade.
Se continuar procurando se torna progressivamente mais custoso, parar pode ser uma resposta bastante coerente.
O voto bom o bastante
Chegamos, então, a uma resposta possível para a pergunta do título. Uma escolha parece boa o bastante quando ultrapassa a régua mínima do eleitor e continuar procurando já não parece valer o esforço. Essa régua varia de pessoa para pessoa e depende do que já se sabe, da importância atribuída à eleição, das alternativas disponíveis e do custo percebido de continuar acompanhando a campanha. É por isso que satisficing não significa “votar de qualquer jeito”. Significa encerrar a busca quando uma opção já parece suficientemente aceitável.
É aqui que arrisco uma hipótese mais forte para 2026. Talvez não esteja mudando apenas o momento em que parte do eleitorado decide, mas também aquilo que considera suficiente para decidir. Minha hipótese é que o teto de esforço pode estar menor e que o limiar de suficiência também pode ter caído.
Em termos simples, menos tempo, menos comparação e menos informação nova talvez estejam bastando para que uma escolha seja considerada resolvida.
Ainda não temos uma série histórica que permita demonstrar esse movimento como tendência. Por isso, trato essa formulação como hipótese. Mas ela é coerente com o quadro discutido até aqui: pouco entusiasmo, entrada tardia na eleição e disposição limitada para investir atenção adicional.
Se essa hipótese estiver correta, o eleitor tardio não necessariamente compensará meses de baixa atenção com uma fase intensa de pesquisa nas semanas finais. Pode acontecer justamente o contrário.
Parte importante da cristalização do voto pode se concentrar na última semana e, para alguns eleitores, talvez apenas nos três ou quatro dias anteriores à votação.
Isso não significa imaginar pessoas chegando a esse momento sem qualquer preferência. O eleitor já carrega rejeições, simpatias, avaliações do governo, experiências anteriores e impressões acumuladas ao longo da campanha. O que pode ocorrer nos últimos dias é a organização desses elementos numa escolha finalmente considerada suficiente.
Isso ajuda a resolver uma aparente contradição. O eleitor pode demorar meses para decidir e, quando finalmente decide, fazê-lo rapidamente. Se a eleição permaneceu abaixo de outras prioridades durante boa parte do tempo, ele não precisa reconstruir toda a campanha quando a necessidade de escolha se torna incontornável. Pode trabalhar com o que já possui, acrescentar poucas informações recentes e encerrar a busca assim que alguma candidatura atravessa seu limiar de suficiência. O atraso e a rapidez, nesse caso, são partes do mesmo processo.
Há ainda uma implicação prática importante para candidatos, marqueteiros, estrategistas e profissionais de campanha. O eleitor tardio não decide necessariamente sozinho. Conversas com pessoas próximas e mais interessadas em política podem funcionar como atalhos para quem não acompanhou a campanha com a mesma intensidade. Se esse eleitor chega aos últimos dias procurando uma escolha boa o bastante e disposto a gastar pouco esforço adicional, essas conversas podem reduzir o custo de buscar e organizar informações por conta própria.
O voto tardio, portanto, pode se cristalizar não apenas pelo que a campanha diz diretamente ao eleitor, mas também pela forma como ele recebe e interpreta a eleição por meio das pessoas em quem confia.
Esse processo, porém, não acontece num ambiente silencioso. Esse eleitor não decide num ambiente silencioso. Quando finalmente resolve prestar atenção, encontra pesquisas, vídeos, notícias, entrevistas, cortes, mensagens, propaganda e interpretações concorrentes disputando os mesmos minutos. Até aqui, o problema foi quanto esforço estamos dispostos a fazer e quantas alternativas precisamos comparar. Há, porém, uma diferença entre lidar com muitas opções e lidar com informação em excesso. Se nosso esforço tem um limite, o que acontece quando a oferta de informação cresce mais rapidamente do que a atenção disponível para processá-la?
Fontes e leituras
Xin-Ru An; Ai-Mei Li; Nan Liu; Hai-Long Sun; Zi-Ming Ye. A Benefit for Maximizers: How Task Involvement Eases Maximizers’ Suffering from Choice Overload. Journal of Pacific Rim Psychology, v. 19, 2025, p. 1–16.
Florian M. Artinger; Gerd Gigerenzer; Perke Jacobs. Satisficing: Integrating Two Traditions. Journal of Economic Literature, v. 60, n. 2, 2022, p. 598–635.
Lucas de Lara; Mark Dean. Rational Choice Overload. Columbia University, 2025. Manuscrito. A versão utilizada é de julho de 2025.
Spencer H. Goidel. Too Many Candidates: The Burden of Choice in Politics. Tese de doutorado em Ciência Política, Texas A&M University, 2023.
Sheena S. Iyengar; Mark R. Lepper. When Choice Is Demotivating: Can One Desire Too Much of a Good Thing? Journal of Personality and Social Psychology, v. 79, n. 6, 2000, p. 995–1006.
Jon A. Krosnick et al. The Impact of “No Opinion” Response Options on Data Quality: Non-Attitude Reduction or an Invitation to Satisfice? Public Opinion Quarterly, v. 66, n. 3, 2002, p. 371–403.
Jon A. Krosnick; Stanley Presser. Question and Questionnaire Design. In: Peter V. Marsden; James D. Wright (orgs.). Handbook of Survey Research. 2. ed. Emerald Group Publishing, 2010, p. 263–313.
Jennifer Musial. Measuring the Burden of Choice: Development and Validation of a Choice Overload Scale. Journal of Consumer Behaviour, v. 25, 2026, p. 2701–2719.
Caroline Roberts; Emily Gilbert; Nick Allum; Léïla Eisner. Research Synthesis: Satisficing in Surveys: A Systematic Review of the Literature. Public Opinion Quarterly, v. 83, n. 3, 2019, p. 598–626.
Leandro Rodrigues. A eleição chegou. O entusiasmo, não. Substack, 2026.
Herbert A. Simon. A Behavioral Model of Rational Choice. The Quarterly Journal of Economics, v. 69, n. 1, 1955, p. 99–118.
Real Time Big Data. Pesquisa Presidencial Brasil. 24 de setembro de 2026. Registro BR-04202/2026.
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Doutor em ciência política, pesquisador do comportamento do brasileiro, das instituições, do Judiciário e da identidade nacional. Professor universitário com passagens por diversas universidades, incluindo UnB e IDP. Ex-pesquisador da ENAP, ex-conselheiro da comissão de anistia do então MMFDH. Sócio e Consultor Técnico da Grupom Consultoria e Pesquisas. Veja o Instagram da Grupom.leandro.rodrigues@grupom.com.br
IA é utilizada no texto para revisão, correção, organização, diagramação e produção de mídias visuais.
1 Sheena Iyengar e Mark Lepper (2000).
2 Jennifer Musial (2026); Xin-Ru An et al. (2025); Lucas de Lara e Mark Dean (2025); Goidel (2023).
3 Goidel (2023).
4 Lucas de Lara e Mark Dean (2025); Artinger, Gigerenzer e Jacobs (2022).
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